Veríssimo, o Diabo e a Amazon

Acordei pensando no Veríssimo, o filho, não o pai. Quer dizer, ele deve ser pai e até avô, mas digo, o Luis não o Érico, com mil perdões, mas os outros não me importam.

Estive no festival de escritores de Sydney no final de semana passado e eles fizeram um painel para você dizer qual o livro que tinha mudado sua vida. Eu fiquei pensando e pensando… mas são tantos livros na minha que não sei dizer, fiquei entre As Aventuras de Xisto, o meu primeiro amor, e o Senhor dos Anéis. Mas queria mesmo é ter uma resposta do tipo “a essência essencial do ser e as profundezas da alma”. A verdade é que não tenho. Hoje de manhã percebi que tem um conto do Veríssimo, o Luis Fernando, que me marcou mais que os outros. O conto em que ele tenta vender a alma ao diabo para poder abrir aquela capinha de plástico do CD. O que no momento já se tornou irrelevante, se o Diabo aceitou a barganha saiu ganhando. Se bem que essa habilidade ainda deve servir para abrir embalagem de chicletes, então não é totalmente inútil.

Hoje de manhã pensei no Veríssimo, e aí, no Diabo. O que eu queria mesmo, pela minha alma, é um monte de Avaliações cinco estrelas, nos meus livros na Amazon.

O diabo do Veríssimo (digo, o diabo criado pelo Veríssimo) iria ficar tão indignado quanto com ele, mas você pode ter tudo que o dinheiro pode comprar! Eu explicaria:

— Eu sei, mas o que o dinheiro não compra, são as avaliações, independentes, na Amazon.

A p@rr4 da Amazon deleta todas as avaliações dos meus parentes e conhecidos, e como o livro fica com poucas avaliações, pessoas que eu não conheço não são incentivadas a fazer avaliações… e vira uma bola de neve.

Acordei pensando em como resolver o problema e só achei uma solução:

— Lucifer!

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Brasil – Quando a Caldeira Explode

Ontem à noite entrei em estado de choque, de tristeza e alegria, assistindo e me inteirando dos protestos e acontecimentos do Brasil desde domingo.

Sou uma brasileira transformada australiana. Nasci no Brasil mas deixei-o há quase doze anos atrás. Saí porque sempre me senti um pouco alienígena no nosso país, com minhas idéias diferentes e a vontade de ler na hora do almoço várias vezes por semana, ao invés de jogar papo fora. Só não lia muito porque me sentia estranha.

E sentar na grama na hora do almoço, na empresa? Aquele gramadão bonito, macio, super bem cuidado, só para ver. Também, na minha imaturidade, não tinha coragem. Se fosse hoje

A outra idéia estranha é de que chefe tem que ser gente e tratar gente feito gente, não funcionário feito lixo. Que empresas têm responsabilidade com seus funcionários, mas que os funcionários também têm responsabilidade com suas empresas, entre muitas outras coisas.

Por isso, fui embora, emigrei para a Austrália, em busca de qualidade de vida e uma cultura mais próxima do meu alien interno. Achei.

Na verdade, ontem fiquei sabendo um pouco mais de tudo que gerou os protestos, as “tranqueiras” do Lula guardados no galpão, a extensão da operação lava-jato, as condenações, a escala da corrupção. Fiquei sabendo mais sobre o problema do Zica, o absurdo da Dilma oferecer al Lula um ministério, até um pouco sobre a lama de Mariana e assim vai.

De vez em sempre me reuno com dois outros brasileiros para assistir velhas séries e novelas brasileiras. Assistimos o Roque Santeiro, a Tieta, Decadência, Que Rei Sou Eu, estamos vendo Riacho Doce agora. Mas ontem ao invés de assistir nossa novela planejada, precisamos mergulhar no youtube e descobrir o que estava acontecendo.

Meu espanto foi tanto que achei que podia me jogar da sacada da casa da minha amiga que ia sair voando. Eu só podia estar sonhando. A gota d’água para mim foram o sumiço das obras de arte do Palácio do Planalto e — como não poderia deixar de ser para qualquer escritor — o mais penoso foi ler uma lista que dizia que o Lula tinha levado duzentos livros na mudança. Não consigo acreditar que os duzentos livros eram dele.

O Portinari, gente, o Portinari faz parte da história da minha família. Numa outra lista notou-se o desaparecimento de uma obra do Portinari, fico aqui com esperança de que isso seja uma mentira, ou que eles encontrem a obra no tal armazém que não é do Lula mas que guarda as “tranqueiras” dele. Que ofensa.

O sangue ferveu, o cérebro parou, o queixo caiu, possivelmente até babei.

Por outro lado, ver os protestos me encheu de felicidade, não só pelo movimento em si, o maior impacto para mim é no orgulho do brasileiro, no patriotismo, no apoio à polícia federal, ao poder judiciário. Deixou-se de lado a descrença de que alguma coisa pode ser feita. Vejo uma grande chance do brasileiro recuperar o orgulho e o conceito de honestidade.

O fato de que tanta gente foi condenada, está indo para a cadeia, que o ex-presidente foi obrigado a depor e pode ser preso, que existe uma saída, é muito encorajador. Estou cheia de esperança e alegria, pensando no impacto disso no dia-a-dia do brasileiro, que em um grande movimento passou a celebrar o que é certo.

Espero que o grito de milhões de brasileiros leve aos corações dos nossos mal pagos policiais e judiciários, um alimento que os mantenha na linha e que os que estejam fazendo ou pensando em fazer algo que prejudique os outros, se lembre que existem consequências. Esse eu acho que é o verdadeiro poder desses protestos, a semente que planta na idéia de cada um e especialmente das novas gerações: o fim da lei de Gerson.

[Nota: o texto em inglês é bem diferente desse em português, em inglês eu escrevi para o estrangeiro, em português para o brasileiro.]

[Crédito da imagem utilizada: http://www.economist.com/blogs/americasview/2013/06/protests-brazil]

Inspiração Fora de Mim

Em Junho de 2015 eu terminei meu Mestrado em Artes, Escrita Criativa, pela Universidade de Tecnologia de Sydney. Naquele momento eu não senti uma sensação de realização muito grande nem fiquei muito alegre de estar terminando o curso, fiquei simplesmente um pouco aliviada. Durante a maior parte do curso eu adorei as aulas e me senti inspirada. No final, entretanto, eu estava sentindo como se tivesse recebido muita opinião alheia na minha escrita e eu havia me perdido um pouco.

Quando terminei o projeto final achei que acabei com mais perguntas do que respostas. Eu comecei o curso para melhorar minha técnica de escrever em inglês em geral, mas eu queria especialmente ser capaz de escrever esse projeto que foi o mesmo que usei para a maior parte dos trabalhos durante todo o mestrado: é um romance de vida real, escrito num estilo de ficção, com um tom de comédia, sobre a minha amiga que é brasileira, imigrada para a Austrália, e foi uma dançarina do ventre em Sydney, se apresentando principalmente nas comunidades de culturas do oriente médio da cidade.

Pode-se perceber que o projeto é complicado e eu senti que precisava de ajuda para prepara-lo. Nunca achei difícil ter inspiração ou encontrar as histórias, o difícil para mim era encontrar como apresenta-las, estrutura-las e organiza-las.

Eu imaginava que quando chegasse ao final do curso eu teria encontrado essa estrutura. Na verdade encontrei as perguntas que preciso responder para, ai sim, encontrar essa estrutura e, com isso, encontrei uma sensação de estar meio perdida.

Eu ganhei muita técnica e me sinto muito melhor equipada do que quando comecei. Também desenvolvi resistência a críticas e uma habilidade de saber onde procurar informação.

Quando chegou o dia da cerimônia de graduação eu fui capaz se me livrar da idéia de não ter chegado onde queria ter chegado e eu tive um dia magnífico com minha irmã e minha amiga (a Musa, a Personagem).

No dia seguinte, foi a Elizabeth Gilbert, quem me fez perceber que eu deveria sim me sentir feliz e realizada. Nós temos Terça TED no trabalho e assistimos a palestra da Elizabeth naquele dia. Ela explicou que é válido imaginar que a inspiração divina é exatamente isso: divina, e portanto vem de fora da gente.

Eu me lembro que durante as aulas nenhum professor me disse: você escolhe a voz, o tom, o tempo verbal, defini o personagem e aí começa a rezar, ou falar com os seus gênios, ou seus daemons, ou anjos e pede guiança. Como seria de se esperar, nós somos ensinados a controlar, a lutar com nosso intelecto e marretar as palavras até que tomem a forma que queremos.

Eu percebi que a coisa que eu havia esquecido essa uma coisa durante meus estudos, que eu havia perdido o contato com essa parte que mora fora de mim: a súbita e super potente, mágica inspiração que faz um texto virar engraçado com umas pequenas mudanças, ou que faz com que as pessoas amem o que você escreveu mesmo se imperfeito.

Quando ouvi a Elizabeth falando dessa parte do processo criativo que não é minha, fui aliviada da responsabilidade de fazer tudo sozinha, com essa linguagem que aprendi depois de adulta. Eu recebi a solução para todos os meus problemas e a certeza de que vou chegar lá e escreverei esse livro que será capaz de transmitir o quanto as histórias são divertidas.

Eu tenho um super-poder, uma intuição que é capaz de ver além do que está à vista. Algumas vezes eu sei de coisas sem explicação e na maioria das vezes, quando essas coisas podem ser confirmadas, elas são exatamente como eu predisse. Eu tenho uma intuição sobre esse livro, eu acho que ele vai ser importante.

A outra coisa que a TED me mostrou, foi porque eu passei a me sentir realizada. A Elizabeth explica que artistas têm uma responsabilidade: continuar fazendo o que amam, continuar suando e trabalhando em sua arte. Essa é a única maneira que o seu Gênio vai aparecer para você. Eu conclui também que continuar melhorando sua técnica é o que te permite transformar uma inspiração divina na obra de arte. Imagine o que aconteceria de Van Gogh pudesse ver os girassóis em sua mente mas não soubesse pintar. O Gênio dele iria para algum outro lugar.

Com esses dois pensamentos — que um artista tem que trabalhar na sua arte, e que a técnica é o que te permite transformar idéias em obras — é que eu fui capaz de ver o meu diploma como a prova de o quando estou comprometida com minha arte, que estou fazendo a minha parte, estou sempre presente e ativa em minha arte, a escrita.

Instrumentos

No momento eu tenho 3 amores-da-minha-vida:

1) meu computador — onde todas as minhas idéias estão arquivadas. Foi um presente dos meus pais, o melhor do mundo. Meu lindo MacBook Air, com o tamanho e peso de um ipad, um teclado super macio, dessa empresa que tem tudo a ver com meus valores: criatividade, design, beleza, sensualidade (sim, o Mac tem uma linha sensual) e agilidade. Eu posso carrega-lo para todo lugar e posso escrever em qualquer lugar. E ele contém o meu outro amor-da-minha-vida: meu software de escrita…

2) meu scrivener — a descoberta que mudou a minha vida de escritora, esse programa de computador que possibilitou que eu organizasse todas as minha idéias. É perfeito para compilar projetos. Quando voce quer criar um livro você pode separar as idéias por capítulos e simplesmente ir em cada parte e preencher com o conteúdo em si. Você também pode mover as partes e capítulos de lugar e guardar itens pesquisados, notas, etc. Por final, o programa exporta o arquivo para muitos formatos, inclusive a maioria ou todos os formatos de livros eletrônicos. Amo esse negócio!

3) minha nespresso — o alimento, ainda que uma bebida, para meus pensamentos; máquina com a qual faço cappucinos mágicos, com chocolate derretido que energizam minhas idéias. Outro presente dos meus pais e minha irmã.

O WordPress da Minha Mente

Eu escrevo porque escrevo o tempo todo, mesmo sem papel e caneta, ou até sem um computador, escrevo por dentro sem parar. Tudo que acontece ao meu redor vira uma crônica no meu blog interno imaginário. Eu falo como se estivesse escrevendo, algumas vezes. O que me traria maior pesar na vida seria ter que para de escrever.

Eu já até criei histórias do que aconteceria comigo se eu tivesse que parar de escrever ou se não tivesse nada com o que escrever. Imaginei, em que situação uma pessoa não pode escrever? E ainda, o que essa pessoa faria?

Eu enlouqueceria porque quando preciso escrever algo, o escrito fica em looping na minha cabeça, e se repete incessantemente, em diálogos ou parágrafos, até o momento que eu posso sentar e passá-los para o papel.

Se eu não tivesse acesso a um computador, ou papel e caneta, eu teria que lembrar todas as frases que minhas experiências estariam criando… a minha memória certamente se expandiria, assim como o meu desespero.

Austrália Porque?

Precisava ser do outro lado do mundo, jura? Minha família e meus amigos acham difícil de entender porque mas depois que eu explicar o processo fica mais fácil de entender.

Depois que eu cheguei à conclusão que eu precisava de uma boa qualidade de vida para me sentir inspirada para escrever (veja o texto chamado “quando comecei a escrever?”) eu comecei a procurar maneiras de fazer exatamente isso.

Eu sei que muitas pessoas se sente inspiradas e até energizadas para escrever quando deprimidas. Eu sabia naquela época, como sei agora, que não importa como você se sente você pode escrever. Lamentavelmente, eu não consigo, eu sou péssima com tristeza com tragédias e infelicidade. Eu prefiro investir minha energia e trabalhar duro em mudar minha condição, fazer a vida melhor para mim e aí escrever. Quando estou me sentindo energizada e inspirada, ai sim posso colher o resultado do meu trabalho.

É claro que sou privilegiada e tive muitos benefícios na vida o que fazem que o pior que já aconteceu comigo ser de baixo nível dramático para muita gente.

Quando estava no Brasil, consegui um trabalho melhor do que meu primeiro emprego, mas mesmo assim este se mostrou quase que uma cópia do outro que era bem ruim. Eu trabalhava há 70 km de casa e revezava dirigir com um colega de trabalho que vivia na mesma cidade, Campinas. Esse moço se tornou um grande amigo e meu leitor mais ávido e eterno suporte em minha escrita. A gente conversava as várias horas de viagem sobre meus textos e personagens, minhas idéias e os pedaços escritos aqui e ali. Ele foi instrumental em me fazer chegar à conclusão de que meu caminho era a escrita. Nós ainda somos amigos nos conectando de vez em quando tecnologicamente para trocar notícias das nossas vidas e nossas inspirações e aspirações artísticas.

O emprego era horrível, o chefe era um troglodita, trabalhávamos muitas horas extras e a viagem era perigosa e muito cansativa, além de que, a empresa ficava numa cidade vizinha com duas fábricas fedorentas.

Se me dissessem que eu tenho que definir qual é o meu elemento, eu diria que é a água. Esse elemento sempre aparece nos meus sonhos em todas as suas formas, várias vezes a água influenciou minha vida.

Quando tinha dois anos de idade eu me lembro de cair num riachinho e ser carregada pela água por alguns segundos. Na minha memória o riacho era um rio volumoso que me arrastou por muitos metros mas como meus pais mal se lembram desse episódio eu diria que a criancinha dentro de mim exagera um bocado a proporção do evento.

Eu cresci passando a maior parte das minhas férias no rancho do meu avô que ficava à beira da represa de Rifaina, uma das represas do Rio Grande em São Paulo, divisa com Minas-Gerais. Além disso, meus pais sempre nos levavam para a praia, mesmo que morássemos em Campinas, há mais ou menos quatro horas de distância do mar.

Eu sinto imensa fascinação pelo oceano e passei muitas horas de minhas férias pensando como eu poderia morar perto do mar.

Eu costumava listar todas as cidades da costa brasileira mentalmente e imaginar se havia uma maneira de conseguir morar e trabalhar em uma delas. Lembrando ao leitor que isso era bem antes de 2003 e portanto não existia google e pouquíssimos websites para se procurar emprego ao redor do Brasil.

A única opção economicamente viável era o Rio de Janeiro, mas nunca quiz morar lá por causa da violência. Eu considerei Fortaleza, CE e Florianópolis, SC mas achei que a probabilidade de conseguir bons empregos nessas cidades era pequena.

No dia anterior ao meu casamento sofremos uma enchente, não muito grande. Morávamos numa chácara dos meus pais pelo fundo da qual o Rio Anhumas passa. Seis anos depois uma outra e maior enchente aconteceu e dessa vez, dois metros de água entraram na casa e meu marido (na época) teve que ser resgatado do teto, por um homem bêbado mas forte que realizou o feito com um barco de alumínio, guiado por uma corda que nós segurávamos da rua, que estava num nível elevado em relação à casa.

Dessa vez perdemos tudo e, para mim, foi a melhor coisa que poderia ter acontecido. Eu sempre quiz morar no exterior e senti como se o Universo tivesse colocado os dois pés na minha bunda e empurrado.

Justamente nessa época, minha prima que morava na Austrália foi visitar a família. Ela colocou Sydney no meu mapa mental pela primeira vez. Através dela descobri essa cidade, à beira mar, maravilhosa, primeiro mundo, com a língua que eu já falava, o Inglês, e ainda com um programa de imigração e que só podia ser a solução para meus problemas.

Eu persuadi o marido a considerar a opção e ele acabou concordando. Acabei vindo primeiro para dar uma espiada. No segundo decidi que esse era meu lar e que aqui havia encontrado uma parte de mim que eu não sabia que estava faltando. Levou alguns meses para que pudéssemos organizar um visto para que ele pudesse se juntar a mim. Quatro anos depois com um trabalho muito árduo, depois de um curso de Confeitaria e 900 horas de trabalho na cozinha, consegui nossa residência permanente e nos divorciamos pouco depois.

Concluindo, o motivo pelo qual me mudei para Sydney, foi mesmo para escrever e ter uma boa vida, duas coisas que estou conseguindo dia a dia.

Quando Comecei a Escrever?

Em certo ponto da minha vida concluí que eu queria ser uma escritora. Acho difícil me recordar exatamente como ou quando cheguei à essa conclusão. Provavelmente um dos momentos decisivos aconteceu quando tinha uns 25 anos de idade e escrevi um conto para os Anjos de Prata, um concurso do Escritor Mário Prata, onde me coloquei em quarto lugar e participei do livro lançado com os melhores do concurso. Àquela altura eu já tinha decidido que ser uma bailarina clássica não era para mim, aos 17 anos eu tinha deixado minha faculdade de dança e mudado para um curso de publicidade e marketing. Aos 25 eu vinha trabalhando em uma grande multinacional que estava drenando minha energia.

Um dia, eu estava dirigindo sozinha para o trabalho, e ouvi a voz do Fernando Morais me dizendo pelo rádio: “escrever é o seu dom maior”. Uma frase um pouco estranha, eu sei, mas não dá para mudar uma voz do além só para fazer o fraseado mais elegante.

Eu costumava ouvir o Fernando Morais falar no rádio então foi a voz dele que imaginei falando comigo, e foi essa frágil loucura que usei para tomar uma decisão. Eu vinha tentando escrever mais e mais e me dei conta que eu tinha que descobrir um jeito de ter uma boa qualidade de vida, para ter energia sobrando para escrever. Se você olhar o texto chamado “Austrália Porque?” vai ver o que me trouxe para a linda cidade Sydney.

Embora a decisão tenha sido feita quando já era adulta, quando mais procuro o momento que comecei a escrever, mais distante no passado eu vou.

Minha melhor amiga me disse que não é todo mundo que escreve histórias de como eles presenciaram a empregada beijando o segurança. Eu estava contando para minha amiga o quanto fiquei com medo da funcionária doméstica porque ela achou minha história e ficou muito brava comigo. Perdida em minha angústia infantil eu nem parei para perceber o quando é incomum, uma criança pequena, escrever sobre sua vida o tempo todo como eu fazia.

Quando eu aprendi o que era poesia eu vendi uma para o meu avô. O coitado nunca recebeu a poesia comprada, porque como poeta eu sou uma excelente novelista. Eu bem que tentei, escrevi algumas linhas sem final. Comi o meu pagamento em balas e foi isso.

Me lembro da cara da minha professora de português da quarta série quando entreguei a ela uma redação de doze páginas ao invés de uma. Eu não poderia parar a história no meio, certo? É claro que a personagem tinha que andar o caminho todo de casa até a escola.  Pobre professora ela era bem chata mas não acho que merecia tamanha punição.

Alguns anos depois meu professor mais lindamente bundado do colegial publicou um livro de contos, e um deles era meu. (Lindamente bundado porque como boa adolescente brasileira eu era obcecada com a beleza das redondezas posteriores ao meu redor, e esse professorzinho novinho tinha um par de redondezas muito belas que chacoalhavam firmemente quando ele escrevia no quadro-negro.) [Dois outros comentários: Eu ainda sou obcecada por belas bundas e naquela época era mesmo um quadro-negro, daqueles que dá um trabalho danado de escrever com giz.]

Enquanto eu ainda progredia na minha carreira de bailarina eu pensava em escrever um livro quando me aposentasse. Acho que não pensava muito claramente, devia ser por falta de alimento. Sou bastante grata de poder dizer que eu calculei as coisas melhor antes de morrer de fome e mudei de idéia. Esse foi meu raciocínio:

Eu não tenho muita flexibilidade muscular para ser uma prima bailarina + eu moro num país de terceiro mundo que se preocupa muito mais com comida e saúde do que com arte + eu nunca posso comer o que quero + eu sempre acho que estou gorda = péssima idéia.

Quando parei de dançar profissionalmente — ainda danço por prazer — comecei a escrever mais, sempre tive milhares de idéias para escrever mesmo tendo que desistir de escrever sobre os beijos da moça que trabalhava lá em casa.