Quando Comecei a Escrever?

Em certo ponto da minha vida concluí que eu queria ser uma escritora. Acho difícil me recordar exatamente como ou quando cheguei à essa conclusão. Provavelmente um dos momentos decisivos aconteceu quando tinha uns 25 anos de idade e escrevi um conto para os Anjos de Prata, um concurso do Escritor Mário Prata, onde me coloquei em quarto lugar e participei do livro lançado com os melhores do concurso. Àquela altura eu já tinha decidido que ser uma bailarina clássica não era para mim, aos 17 anos eu tinha deixado minha faculdade de dança e mudado para um curso de publicidade e marketing. Aos 25 eu vinha trabalhando em uma grande multinacional que estava drenando minha energia.

Um dia, eu estava dirigindo sozinha para o trabalho, e ouvi a voz do Fernando Morais me dizendo pelo rádio: “escrever é o seu dom maior”. Uma frase um pouco estranha, eu sei, mas não dá para mudar uma voz do além só para fazer o fraseado mais elegante.

Eu costumava ouvir o Fernando Morais falar no rádio então foi a voz dele que imaginei falando comigo, e foi essa frágil loucura que usei para tomar uma decisão. Eu vinha tentando escrever mais e mais e me dei conta que eu tinha que descobrir um jeito de ter uma boa qualidade de vida, para ter energia sobrando para escrever. Se você olhar o texto chamado “Austrália Porque?” vai ver o que me trouxe para a linda cidade Sydney.

Embora a decisão tenha sido feita quando já era adulta, quando mais procuro o momento que comecei a escrever, mais distante no passado eu vou.

Minha melhor amiga me disse que não é todo mundo que escreve histórias de como eles presenciaram a empregada beijando o segurança. Eu estava contando para minha amiga o quanto fiquei com medo da funcionária doméstica porque ela achou minha história e ficou muito brava comigo. Perdida em minha angústia infantil eu nem parei para perceber o quando é incomum, uma criança pequena, escrever sobre sua vida o tempo todo como eu fazia.

Quando eu aprendi o que era poesia eu vendi uma para o meu avô. O coitado nunca recebeu a poesia comprada, porque como poeta eu sou uma excelente novelista. Eu bem que tentei, escrevi algumas linhas sem final. Comi o meu pagamento em balas e foi isso.

Me lembro da cara da minha professora de português da quarta série quando entreguei a ela uma redação de doze páginas ao invés de uma. Eu não poderia parar a história no meio, certo? É claro que a personagem tinha que andar o caminho todo de casa até a escola.  Pobre professora ela era bem chata mas não acho que merecia tamanha punição.

Alguns anos depois meu professor mais lindamente bundado do colegial publicou um livro de contos, e um deles era meu. (Lindamente bundado porque como boa adolescente brasileira eu era obcecada com a beleza das redondezas posteriores ao meu redor, e esse professorzinho novinho tinha um par de redondezas muito belas que chacoalhavam firmemente quando ele escrevia no quadro-negro.) [Dois outros comentários: Eu ainda sou obcecada por belas bundas e naquela época era mesmo um quadro-negro, daqueles que dá um trabalho danado de escrever com giz.]

Enquanto eu ainda progredia na minha carreira de bailarina eu pensava em escrever um livro quando me aposentasse. Acho que não pensava muito claramente, devia ser por falta de alimento. Sou bastante grata de poder dizer que eu calculei as coisas melhor antes de morrer de fome e mudei de idéia. Esse foi meu raciocínio:

Eu não tenho muita flexibilidade muscular para ser uma prima bailarina + eu moro num país de terceiro mundo que se preocupa muito mais com comida e saúde do que com arte + eu nunca posso comer o que quero + eu sempre acho que estou gorda = péssima idéia.

Quando parei de dançar profissionalmente — ainda danço por prazer — comecei a escrever mais, sempre tive milhares de idéias para escrever mesmo tendo que desistir de escrever sobre os beijos da moça que trabalhava lá em casa.

Top of the World

I’m at the top of the world. At least what I was told is the highest restaurant in Australia, The Eagle’s Nest, after taking the Kosciuszko Express lift in Thredbo. It definitely feels like the top of the world.Since my legs aren’t very happy to ski this morning, I have decided to come to do something else I love doing…

Eagles Nest

I came to the mountains to ski, but my very-advanced-beginners level is letting me down today and I’m not even reaching an intermediate-beginners level. I feel tired with muscles screaming. It might be because I’m not very fit this year or maybe it has to do with sharing a room with 4 people, who took forever to go to bed yesterday, after a long drive from Sydney meaning I went to sleep almost 3am. Then a $ˆ#ing phone rang three times between then and 5am. The very unconsidered person did not turn the phone off even after I asked her to.

It is difficult to go back to sleep because you keep thinking “in which world, does this person thinks this is okay?” We all had to wake up early to get breakfast, ski gear and passes, before seven I was up with a headache. I’ve upgraded for tonight to a very single, wonderful, phone-ringing-and-conversation free room.

I have decided to make the best of it, and here I am looking out, seeing brown mountains contrasting with very white snow. Rocks that look like dinosaur droppings, but pretty nonetheless.
I just heard one of the waitresses talking to the other:

‘Did you bring your board?’

‘Yeah’

‘When you finish do you wanna go down?’

Meaning, after work they snow-board mountain down. How cool is that?


Like one of my gurus say, this is living the life of my dreams to the degree that I can.

It did not start as fancy stuff, it is a backpacker’s trip, but can it get any better? Writing with mountain views, eating the best wine garlic prawns ever, and knowing I will even sleep tonight?
This place has a cinnamon smell and offers hot chocolate with Baileys. Guess what I will order next?
I can say with my whole heart, head and body into it: I’m happy.

No Topo do Mundo

Estou no topo do mundo. Pelo menos me disseram que esse é o restaurante de maior altitude na Austrália. Chama-se ‘O Ninho da Águia’, ‘The Eagle’s Nest’. Cheguei aqui com o teleférico ‘Kosciuszko Express’ na montanha de Thredbo. Realmente, me sinto no alto do mundo.Como minhas pernas não estão colaborando para esquiar, resolvi fazer essa outra coisa que amo fazer…


Eu vim para as montanhas para esquiar, mas o meu nível de principiante-super-avançada não está funcionando de jeito nenhum hoje, e não estou dando conta nem de parecer principiante-nível-médio. Estou cansada com os músculos gritando de cãibra e dor. Talvez seja porque não estou muito fit esse ano, ou por ter dividido um quarto com quatro pessoas, as quais demoraram muito para ir para suas camas ontem, depois de uma longa viagem de Sydney até aqui. Acabei indo dormir quase três da manhã e fui acordada três vezes por uma $@sta de telefone antes das 5 da matina. A pessoa sem noção não desligou o telefone mesmo depois de eu pedir.

O que dificulta a gente a voltar a dormir é o pensamento “em que mundo essa pessoa acha que é okay deixar esse telefone tocando desse jeito?” Nós todos tínhamos que acordar cedo para pegar café da manhã, os equipamentos de esqui alugados e o passe dos teleféricos da montanha. Eu modifiquei minha reserva para essa noite, para um quarto só meu, sem telefones e conversas. Então resolvi tirar o melhor proveito da situação, e aqui estou, vendo as montanhas marrons, salpicadas de branco muito branco, com rochas que parecem esterco de dinossauro, mas muito bonitas mesmo assim.


Acabei de ouvir uma garçonete de cabelo vermelho falar para a outra loirinha com uma tatuagem de uma rosa ocupando metade de seu ante-braço:

– Você trouxe sua prancha?

– Trouxe.

– Vamos descer juntas depois do trabalho?

Quer dizer, quando terminarem seu turno as moças vão descer a montanha show-boarding. Muito legal né.


Como um dos meus gurus costuma dizer, isso é que é viver a vida dos seus sonhos da maneira que eu posso nesse momento. A viagem não era para ser nada chique, uma viagem de mochileiros, mas não dava para ficar melhor. Escrever com vista da montanha, comendo camarão ao vinho e alho e ainda sabendo que vou poder dormir hoje à noite, é simplesmente o máximo.

O restaurante tem cheiro de canela e oferece chocolate quente com Baileys. Adivinha o que vou pedir agora? Posso dizer, de corpo e alma, que estou feliz.

A Narrativa Positiva

Para descobrir porque escrever é tão importante quanto respirar para mim, eu comecei a olhar para as coisas que gosto de fazer.

Adoro narrativas, contos, personagens. Em livros ou filmes, procuro personagens bem construídos, histórias que eu possa seguir com profundidade de personalidades e longos enredos. Amo ler, e ver séries de TV e filmes, amo conversar com amigos e seguir suas vidas e meus assuntos preferidos são relacionamentos e discutir as minúcias de como o mundo funciona.

Seguindo essa lógica, descobri que escrevo para fazer parte da construção da aventura das pessoas, para influenciar, mesmo que um pouquinho, suas escolhas e destinos.

Um calor me invade quando ouço alguém rindo de algo que escrevi, or quando eles me dizem que foram influenciados pelas minhas palavras de algum jeito. Eu escrevo para criar uma influência positiva e aceito que, às vezes, minha escrita pode ser vista através de um prisma negativo.

Eu sei, por experiência, que mudar os caminhos das nossas vidas é difícil e espero que compartilhando minhas histórias eu possa ajudar a criar coragem nos meus leitores para mudar, quando necessário, e sempre progredir em suas vidas.

o som da mata

Eu estava andando para casa depois do trabalho, subindo o morro, na estrada que me leva do escritório para casa. Eu sei que parece estranho, mas eu trabalho num escritório que passa no meio de uma mata. De manhã eu sinto como se estivesse saindo de férias, todos os dias. Ainda assim é suficientemente perto do centro da cidade para que funcione.

Da mata, ouço um som, parecem vozes cantando no meio das árvores. Imagino um coral ou pessoas de um culto, gente reunida no meio do verde, cantando. À medida que me aproximo, vejo que é música pop, não música de coral como havia imaginado. Fico achando que é uma festa, mas não há nada ali a não ser árvores, um penhasco e água. Chego à clareira, e vejo um navio de cruzeiro, a fonte da tal música.

Sou recebida por um casal de perus que moram por ali, já vi a fêmea no local antes. Hoje recebi uma exibição do macho…

Female Turkey Grazing

The sound from the bush

I’m walking home after work. Going up the hill, on the road that runs through the bush that takes me from the office. I am aware it sounds strange but I actually work in some offices that are far enough from the centre of the city to make me feel as if I am going on vacations every day. It is still close enough, about 35 minutes driving, to make it viable.

From the bush, comes a sound of music, I think there are voices coming from the trees. I imagine a choir, or a cult, people gathered among the trees singing. As I come closer, I can hear some pop song, no choir. I imagine where the party is, there is nothing but trees, a cliff and the water… Then I come to the clearing and I see a cruise ship, the source of the music.

I am received by the couple of turkeys that live somewhere around the place as I’ve seen the female before. I was given prime view of the male today, though…

Female Turkey Grazing

I fail on a daily basis to watch the news

I received this message last night from my friend:

“I know you aren’t much into politics, just so you know, Australia’s got a new Prime Minister.”

Not much into politics is a major understatement. I can say I am alienated in an intellectual way. I don’t watch, or read, or listen to the news if I can avoid it. In general, my news are a couple of years old, when the major events appear in published books.

I felt very grateful to have friends that alert me when something major is happening so I can reconnect with reality.

To maintain my stream of interesting issues to talk about, I connect with story tellers, with things like Ted talks, podcasts, audio books, going to events and lectures and even watching high quality drama (no reality tv permitted in any way).

I simply cannot stand the journalistic style of writing, I cannot find the energy or the will to read or view the news. Maybe it comes from the trauma of having lived in a third world country where the news are a string of atrocities or injustices, I’m not sure.

But today I made an exception to see what was going on in my country. I went to ABCs news podcasts and clicked on all the ones from today and yesterday about the change of the Prime Minister. It was hilarious because there are all these interviews from yesterday and they talk to many people who categorically affirmed “they are all rumours, there is no truth in any of that, we will be in power at least for another year” and about six hours later the exact opposite happened.

Watching the news knowing what comes next might be fun.

Chickenated Bicycle

This morning I was walking on a walkway near the road talking on the phone; I noticed that a bike was approaching, the movement behind me or the sound alerted me to the fact. I stepped to the side to give the person space to pass me by. As they moved, I saw this thing emerging in my peripheral vision. It was a bicycle but on top of the handlebars there was a stuffed chicken. Not just a normal chicken too, it looked like an African sort of chicken, appearing to be a bit special. The guy passed me by thanking me for having given way. I responded.

This is the first really hot day after the winter in Sydney and he was topless, his body was thin and un-muscled, I could see his bones poking out of the skin and he had a hairy back. His bicycle had two saddle-bags that looked full. I have the impression it was his home… his and the chicken’s.

Bicicleta Agalinhada

Estava eu a caminho do trabalho hoje de manhã, andando e falando ao telefone, quando sinto uma sombra se aproximando. Do jeito que nossa mente sabe das coisas sem olharmos eu sabia que era uma bicicleta que vinha atrás de mim.

Eu dei passagem e eis que surge no meu campo de visão uma bicicleta, como imaginado, só que em cima do guidão pousava uma galinha empalhada. Uma galinha empalhada que ainda era especial, não era uma qualquer, devia ser africana ou algo assim, parecia meio diferente.

O ciclista era um homem magro, sem músculos, com os ossos apontando nas costas peludas, e ele tinha na bicicleta dois alforges, aquelas sacolas que parecem sacos de sela para cavalo.

Fiquei com a impressão que a bicicleta era sua casa, quer dizer, o lar do homem e da galinha.